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Foi amor.

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Quando dizem que o amor transforma, tenho de concordar.

Quando você precisou de alguém que bebesse todas com você para superar seu último fracasso (relacionamento), mesmo que eu não gostasse de bebidas alcóolicas… Eu bebi. Virei todas. Pedi a próxima rodada. Rodopiei tão forte ao som de músicas que não conhecia, tudo pra ver o seu sorriso. E eu vi. Fomos do A a Z nas páginas amarelas da diversão. Vimos o sol nascer, vimos o sol se por, dançamos na chuva, e fizemos guerrinha de lama quando tudo que tínhamos era… Bem, lama. Lembra? Naquele dia eu resolvi sair com minha bota de salto alto, e nós dois sabemos que saltos altos não são meu forte. Tropecei feio no estacionamento da festa e caí de cara na lama. Você me olhou assustado, sem saber como reagir, e em segundos se jogou na lama do meu lado. Rolamos feito duas crianças, e desistimos de ir à festa. Não era sobre a festa, né? A gente sabia muito bem disso.

Quando eu fui demitida do meu último emprego você apareceu com um buquê de flores na porta da minha casa, e eu tive uma reação alérgica tão forte que passamos a noite assistindo Netflix e rindo das flores que jaziam trancadas do lado de fora da minha varanda. Mas tudo bem porque você também tinha levado um pacotinho de lenços de papel, e eles foram muito úteis. Nesse dia você adormeceu no meu colo, e eu fiquei um tempão segurando o espirro pra não te acordar. Será que amar era assim?

Quando você brigou com sua família, eu disse a você que eu poderia ser a sua família. Você riu e disse que nossos olhos eram diferentes. Eu abri um site de lentes de contato e disse que resolveria o problema ali mesmo. Você puxou o celular da minha mão e disse que eu era muito mais do que família olhando bem no fundo dos meus olhos. Nesse momento meu coração bateu tão forte que nem era preciso um teste cardíaco… Nossos olhos se encontraram e se encarregaram da mensagem que a boca não tinha coragem de passar.

Quando eu me decepcionei com o cara que estava ficando, você perguntou o que poderia fazer para me fazer feliz. E a resposta foi tão óbvia que me atingiu como um soco: fique do meu lado. Eu só precisava de você ali, existindo comigo. Passamos horas sentados no meu sofá, encarando a parede. Até que você pegou a minha mão, e não disse nada. Eu deixei.

Quando você precisou de uma acompanhante para o casamento do primo-chato-de-quarto-grau, bem, lá estava eu. Comprei o vestido mais bonito que minha condição financeira me permitia, e lá fomos nós. Sua família me adorou, fiz sucesso entre os tios que insistiam em dizer para você me pedir em casamento logo, pois um exemplar igual seria difícil de achar. Até parece. Igual a mim você acha em qualquer esquina… Meu único diferencial é que eu conhecia todos os seus defeitos, e ainda assim, eu queria ficar do seu lado. Isso não é pra qualquer um, realmente.

Quando eu bati de carro, e fui parar no hospital com algumas feridas leves, você foi a primeira pessoa que eu vi quando acordei. Os médicos disseram que você não saía de perto de mim nem para comer, e que não tomava banho há dias. Minha primeira frase depois de alguns dias desacordada foi “Nossa, você está fedendo…”. E você sorriu. Eu sabia que a sua vontade não era de sorrir, afinal, devia estar preocupado comigo.

Quando você me disse que passaria um mês fora em outro país, eu quis chorar. Porém dei meu melhor sorriso e te incentivei. Seria importante para a sua carreira esse curso nos EUA, meus sentimentos podiam ficar para outra hora. Viramos noites e noites no skype, e teve um dia que até dormimos juntos ouvindo a respiração um do outro. O que estava acontecendo?

Quando você chegou no aeroporto, corri de encontro a você e pulei no seu colo. Você disse que nunca mais queria passar um dia longe de mim. Eu assenti. Nunca quis. Você passou a mão no meu rosto, decorando todas minhas feições. Senti um aperto no estômago. Desconversei e me ofereci para ajudar a carregar suas malas.

Quando eu disse que queria muito ir naquela festa que ia tocar Alesso, meu dj preferido, você prontamente comprou os ingressos. Chegamos na festa empolgados, bêbados, cantando uma música da Ivete Sangalo que tocou no Uber enquanto vínhamos para cá. Você pegou minha mão, e foi me puxando pro meio da multidão. Eu esbarrei no Marcos, lembra? Eu era doida pra dar uns beijos no Marcos. O Marcos olhou pra mim, e veio na minha direção. Você recuou. Era assim que fazíamos um com o outro quando algum de nós queria ficar com alguém. Fiquei com o Marcos para no fim descobrir que ele beijava super mal. Olhei pra você, fiz um sinal, e você me puxou pra longe dali. Você perguntou “Não gostou?”, e eu respondi “Ele beijava muito mal”. Você me encarou com os olhos amendoados apertadinhos e disse “Será que você vai gostar do meu beijo?”, e me beijou. Simplesmente assim. E eu gostei. Mas tinha mesmo alguma coisa em você que eu não gostava…?

Quando você quis me beijar dia após dia, eu deixei. Quando você disse que eu era a mulher da sua vida, acreditei. Quando eu disse que te amava, eu realmente quis dizer aquilo… Mas o amor transforma, né?

E o tempo passou.

Quando você começou a me esconder as coisas, me afastei. Deixei de confiar na sua palavra, e você deixou de ser o meu refúgio. Quando você disse que não sabia o que queria pra sua vida no momento, escutei. Eu sempre soube o que queria pra minha vida, e uma delas era não viver assim, cheia de incertezas. Quando você sumia por dias e depois aparecia com um sorriso no rosto, eu tinha vontade de dizer que aquele sorriso não me balançava mais. Quando você flertava com outras garotas, e depois me olhava esperando alguma reação da minha parte, eu queria dizer que tinha um pouco de dó de você. Quando você foi no cinema assistir um filme de terror (os meus preferidos) com alguns amigos e nem me convidou, eu deixei pra lá. Quando você não me contou que foi promovido, e eu fui saber dias após pela boca de outras pessoas, me questionei o porquê disso tudo. Quando você apareceu namorando uma garota da sua academia, te parabenizei. Quando você esqueceu do meu aniversário, eu coloquei na cabeça que você não era mais a pessoa que eu conheci anos atrás. E aí eu entendi tudo. A magia do amor era exatamente essa. Entender que o amor muda, transforma, se adapta com nossas condições.

Quando você precisou de uma amiga que afogasse as mágoas com você, lá estava eu. Quando você precisou de um apoio para os dias frios e tristes, eu também estava lá. Quando você precisou de um aconchego e um carinho no cabelo, prontamente me ofereci. Quando precisou de um par pra uma festa de casamento, o vestido eu comprei. Quando precisou de alguém que te apoiasse na sua carreira? Eu fui a primeira da fila. Quando precisou de deixar o amor arder? Eu ardi junto. Entrei em combustão.

Mas um dia também precisamos deixar o amor ir… E eu deixei. E eu fui. Corri pra tão longe que você nunca mais vai ouvir falar sobre mim.

Foi amor, é claro que foi. Mas o amor transforma. O nosso se transformou em um grande nada, mas ainda assim, foi amor.

 

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