Você vai me fazer sentir?

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Eu sempre fui uma garota que parecia não se importar muito com as coisas. Ou com as pessoas.

Enquanto todas crianças abriam o berreiro quando os pais saíam de casa, eu apenas ia para o meu quarto e ficava quietinha brincando com minhas bonecas. Quando minha mãe foi me buscar no primeiro dia de aula, ela me perguntou se eu senti saudades dela... E eu respondi que não tive tempo para sentir saudades. Enquanto todas minhas amigas tinham plena convicção de que queriam se tornar mocinhas logo e arrumar o primeiro namoradinho, eu só pensava no passo de ballet que iria aprender na minha aula mais tarde. Enquanto todos levantavam a mão na sala de aula e diziam para a professora o que queriam ser no futuro, eu só pensava o quão era nova para escolher algo. Eu tinha que escolher? Quando assisti minha melhor amiga se descabelar porque seu primeiro namorado tinha terminado com ela, eu só conseguia pensar em como o amor é tão injusto. Em alguns corações tanto, em outros nada. Enquanto meus pais discutiam dentro de casa, eu só pensava em como certas discussões não existiriam se as pessoas não fossem tão egoístas e pensassem só um pouquinho nos outros. Mas ficava quieta no meu quarto, rezando para que eles parassem logo. Enquanto todos estudavam para as provas do colégio para poder garantir o futuro, eu só queria me afundar nos meus livros e nas histórias que criava na minha cabeça. É que nada daquilo fazia sentido pra mim, sabe? Enquanto todo mundo acabava torcendo para o time de futebol que seus pais torciam, eu me peguei pensando: Ué, eu não posso escolher? Eu quero torcer pro time da estrelinha. Eu gosto de estrelas. É isso aí. Esse é o meu time.

Enquanto todo mundo se preocupava com o futuro, eu achava incrível o agora. Esse segundo. Esse mesmo, que passou. Você aproveitou?

Também nunca entendi muito bem porque as pessoas odiavam as outras, isso nunca fez sentido pra mim. Odiar alguém que eu nem conheço? Ou pior, odiar alguém que eu conheço vai trazer o que de bom para a minha vida? É perda de tempo. E temos tão pouco tempo...

Procurar o amor sempre me deu um pouco de preguiça. Eu tinha que procurar? O amor? Mas que amor? As pessoas falam que se amam com tanta facilidade que a palavra amor não tem tanto significado assim pra mim... Talvez um "meu sorriso é fácil quando você está comigo" me leve às nuvens. Ou um "antes de você ir embora, eu já sinto saudades" revire meu estômago.

Ou os seus olhos em cima dos meus. Isso basta...

Enquanto todos se prendem à conceitos, amarras, status em redes sociais, eu dou valor à outras coisas. Dou valor ao que quase ninguém vê, ao que não tem "valor algum". O modo como suas mãos tremem quando estamos juntos e você tem que destacar o ingresso do cinema. Ou o olhar que você lança pra mim, sem saber, mas que diz mais do que você conseguiria dizer. O jeito que você fala quando tá perto de mim, mansinho, porque eu acalmo seu coração ansioso. Ou quando você perde as palavras, e eu as encontro. Dou valor às nossas noites mal dormidas, falando sobre tudo e sobre nada, só os dois, sentindo a energia que vibra à nossa volta quando estamos juntos. Gosto de observar as estrelas e pensar no quão infinito é o universo, e o quanto sou grata por todas às vezes que eu me senti tão infinita quanto ele.

Esse amor fácil de hoje em dia em nada me atrai. Você fica com um hoje, outro amanhã, um terceiro no próximo dia útil. E o que me espanta, é que isso é muito fácil, você só precisa querer. E eu nunca quis isso, entende... Não tenho fome de amor. Não tenho fome de sexo. Não tenho medo de ficar sozinha. Então sempre que esses assuntos surgem na roda de amigos, me calo.

Ninguém iria entender a fome que eu tenho.

Ela é maior do que tudo. Me consome. Me cega. Me faz ter vontade de fugir. De jogar tudo pro alto. De gritar. De cortar o cabelo. Mudar para outra cidade. Outro país. Pegar o carro e viajar sem destino. Me hospedar em um hotel que não olhei na internet. Me faz ter vontade de rodopiar sozinha. De escutar música até meus tímpanos explodirem. De pisar no acelerador para me sentir viva. De dizer o que eu penso sem medo. De contar histórias até o amanhecer. De correr pra longe de tudo que me retém. Eu vivo com pressa. Faminta, sedenta, clamando por tudo que faz meu coração acelerar.

É que eu tenho fome de tudo que me faz sentir infinita. Tenho fome de tudo que me faz sentir invencível. Fome de tudo que não precisa mais do que 10 segundos para se tornar inesquecível na minha mente tão esquecida...

Eu sempre fui uma garota que parecia não se importar muito com as coisas. Ou com as pessoas.

Besteira... É claro que eu me importo. O que ninguém nunca entendeu é aquilo que eu me pergunto todos os dias:

Você vai me fazer sentir?

Escrito por Isabela Freitas

Isabela Freitas tem 25 anos, mineira, atualmente em São Paulo, mas vive mesmo no mundo da Lua. Gosta do número 7, amores de arrancar o coração, bichinhos de rua e músicas fofinhas. Ah, ela adora signos também. Sagitariana, teimosa, sincera, sonhadora, dramática e um pouco exagerada. Mas só um pouquinho. Autora dos livros "Não se apega, não" e "Não se iluda, não", e você pode comprá-los aqui. Juntos eles já venderam 500.000 exemplares e até hoje eu não acredito nisso.