AUTOR: Ruth

Dona do meu coração

Ultimamente ando me perguntado se é normal sentir falta do que nunca se teve, de um sorriso que nunca foi seu, de um olhar, de um cheiro que impregna a mente, que chega a estremecer todo o corpo só de lembrar. Nesses momentos que penso em você é quase como se eu não tivesse poder sobre mim, sobre meu corpo. Hoje de uma coisa tenho certeza: por muito tempo meu coração não mais me pertenceu.

Eu gritei com meu coração certo dia, esperneei que nem criança, bati o pé, mesmo assim ele não me obedeceu, me deu as costas relutante, quase um pedido de desculpas, e me informou que nada poderia fazer, derrotado disse que já era seu há tempo demais.

Sabe, já cheguei a inventar desculpas para você ser assim, por não me amar na mesma proporção, por sequer me amar, a minha desculpa mais recente era a tal atimia, uma condição que caracteriza as pessoas incapazes de expressarem, ou mesmo terem, sentimentos. Eu sorria às vezes com esse pensamento, confesso: essa era a minha melhor desculpa, afinal, não era realmente culpa sua se você não conseguisse mais gostar de mim. Contudo, momentos depois eu entendia minha ilusão e, admito, me sentia envergonhada ao ponto de lágrimas se formarem e eu terminar me perguntando o porquê.

Decidi que deveria tomar uma atitude, passei a ocupar meu tempo ainda mais porque isso ajudava a não pensar em você, sentia que meu coração havia entrado em greve, cruzado os braços no meu peito e começado a bradar para mim: “você desistiu de nós, você desistiu dele!”, e então eu respirava fundo e relembrava meu pacto com o cérebro: deveria me concentrar em te esquecer, não se pode sofrer para sempre afinal… e bem, eu não estava desistindo, apenas entendi que eu deveria tomar as rédeas da situação.

Mas o pior mesmo era quando o cérebro esquecia o nosso pacto, eu ficava desarmada, desprotegida, e de repente perdia minha força, a única coisa que eu conseguia fazer era sussurrar “ele não gosta de mim, aceite isso” repetia 4, 5, 6 ou quantas vezes fossem necessárias até que o cérebro acordasse e se aliasse a mim novamente.

Então, eu pensava naquelas pessoas corajosas, que persistiam até conseguirem o que ansiavam, as pessoas que lutavam uma batalha interminável e enfim conseguiam o que tanto desejavam, nesses momentos uma vozinha irritante gritava forte, como eu podia ser alguém tão fraca assim? Como não conseguia fazer você gostar de mim? Mas finalmente chegou o dia que compreendi: eu era a corajosa, te deixar partir foi a coisa mais difícil que eu poderia ter feito, e a melhor também. Eu guardei nossas recordações e senti meu coração finalmente se aconchegar, quando ele entendeu, eu também entendi: você sempre seria uma parte de mim, amá-lo foi um processo essencial para que eu desenvolvesse meu potencial como pessoa, como mulher, porém sua passagem em minha vida já tinha alcançado seu propósito, era chegada a hora de realmente me libertar. Meu coração abriu os braços e, com um sorriso, aceitou essa decisão, eu era novamente sua dona! Senti a confiança retomar seu espaço e finalmente percebi que quem perdeu foi você esse tempo todo.

O que seria dos vôos a felicidade sem algumas precipitações em direção ao abismo? Amar e terminar o que tínhamos me fez variar entre extremos, caminhar pelo inferno de dúvidas, cultivei incertezas inúteis; hoje posso dizer orgulhosa que sou uma pessoa melhor e mais forte, sobrevivi a você e a todas as suas ingerências sentimentais, sobrevivi ao pior de seus ataques: o desprezo, mas principalmente alcancei a maior de todas as lições, aprendi que devo primeiro amar a mim.

Escrito por Ruth

"Brasiliense, louca de pedra, gosta de coxinha, chocolate e sorvete. Tropeça olhando as nuvens enquanto caminha. Adora árvores e cheira livros. Profunda, filosófica e dramática. Sobretudo, sonhadora, viciada em séries, filmes e amores impossíveis...mas nem sempre nessa ordem".

Adeus última hora de visualização

Sinto-me uma guerreira, mais um dia que eu sigo firme no processo de “desintoxicação da última visualização”. Eu sei que parece bobo, entretanto acho que mereço uma daquelas medalhas só pelo esforço porque, convenhamos, o processo realmente é penoso. Faz duas semanas que eu consegui me libertar da espiadinha de 5 em 5 minutos, e agora eu vejo só de 1 em 1 hora. O quê? Não me julgue! Estou no processo, lembra? Não disse que já tinha finalizado... Consigo ouvir você dizendo “não seja trouxa” e balançando a cabeça para os lados em negação, eu sei, eu sei, também penso nisso. E para aliviar a trouxisse diária eu às vezes falo em voz alta a frase: "E-U S-O-U I-D-I-O-T-A", assim, desenhando no ar as palavras em letras grandes e garrafais, sem esquecer da pausa em cada letra para dar mais ênfase ao significado.

Nesses momentos lembro-me da minha mãe, quando me dava surra de sílabas na infância: “IS-SO-É-PRA-VO-CÊ-A-PREN-DER". Ela dava pequenos tapinhas para, segundo ela, me fazer entender as coisas erradas porque, aparentemente, eu sempre tive tendência a escolher o pior para mim.

Porém, como uma boa otimista, me convenço: é a lei do universo, as coisas dão errado, certo? De qual outra forma eu aprenderia?

A verdade é que sinto falta dele... e como sinto! Quando me lembro do sorriso, o jeito que me olhava, até o silêncio confortável; e momentos depois me lembro da sua indiferença, eu então sinto o caroço se formar na minha garganta; tento inutilmente empurrar a saliva garganta abaixo enquanto respiro fundo imaginando que o melhor mesmo a fazer é me afastar.

Eu sei que ele não me merece, que há outros caras que me querem, que eu sou boa demais para ele. Mas bato forte no peito exigindo do coração um chega, de insistir, de me prolongar onde não sou bem vinda, de tentar forçar para ficar, de pedir para ser amiga, e até de pensar em frases prontas só para ter o que conversar.

Agora eu sei, com pesar no coração, que eu fiz e tentei de tudo. Me sinto feliz porque o fardo aos poucos está indo embora; não dá para implorar amor, não dá para se espremer dentro de si por minutos forjados de felicidade em falar com alguém que não te nota. Não te quer. Não te merece.

Posso dizer com propriedade: as palavras não me afetam mais. Devo finalmente estar aprendendo, como minha mãe tanto queria que eu aprendesse. Deve ser isso o significado de crescer, entender que, por mais que algumas coisas doam dentro de você, a vida é muito curta para ser desperdiçada com quem não quer ficar ao seu lado.

Escrito por Ruth

"Brasiliense, louca de pedra, gosta de coxinha, chocolate e sorvete. Tropeça olhando as nuvens enquanto caminha. Adora árvores e cheira livros. Profunda, filosófica e dramática. Sobretudo, sonhadora, viciada em séries, filmes e amores impossíveis...mas nem sempre nessa ordem".