AUTOR: Deborah Sequeira

ACHO QUE CRESCI

Eu não sei ao certo quando foi, mas eu abri os meus olhos um dia e nada mais estava igual. Tudo que eu havia criado para mim havia desaparecido em um estalar de dedos, e eu nem sequer tive tempo de me despedir, ou de perceber o quanto eu era feliz sem nem saber.


Meu reino inteiro havia sumido. Os castelos, as princesas, o meu vestido de glitter e minha coroa de flores feita pelos gnomos mágicos. A floresta encantada também.


Até o tesouro, que eu havia conquistado quando corri pelo quintal e atravessei o arco-íris não estava mais embaixo da minha cama, trancafiado à sete chaves.

Minha roupa de batalha, minha espada prateada e minha varinha, tudo havia ido embora. Eu não podia mais salvar a cidade como super-heroína, derrotar os vilões da minha história com os meus poderes mágicos e nem visitar o país das maravilhas.

Me sentei no lago e a sereia não veio conversar. Nem as nuvens tomaram formas de dragões ou de cachorrinhos engraçados. Nada mais parecia tão legal, tão divertido ou tão único.

Com o tempo, parei de desenhar a menina com o balão de coração que flutuava no papel A4 e tomava vida. Parei de virar presidente do meu prédio, cantora profissional do meu chuveiro e atriz dos teatros da minha sala.


Eu achei que havia crescido.

Quando tudo começou a parecer normal, eu notei que havia perdido a graça do negócio inteiro. As responsabilidades da escola, as argumentações com os meus pais, que não pareciam mais nem rei nem rainha. Quando me apaixonei por um cara normal e ele não veio num cavalo branco e nem me deu o beijo do amor verdadeiro. Quando a floresta virou só uma floresta e o mundo pareceu enorme e eu pequena demais.

Mas não foi naquele dia que eu cresci, não mesmo. Eu chorei muito com a cara enfiada no travesseiro depois daquilo, corri muito atrás dos pedaços do meu coração quebrado nas voltas das festas, ainda achava que um raio era o fim do mundo. Ou pelo menos, do meu mundo.


Mas não era, nunca foi. Eu descobri que a faculdade não é nada do que parece nos filmes de hollywood (é até melhor) e que escolher uma profissão pro resto da sua vida é uma responsabilidade e tanto (mas escolhi). Descobri que eu posso continuar sendo o que eu quiser e quando eu quiser. Que o coração quebrado sempre pode ser restaurado mesmo sem a ajuda dos gnomos mágicos curandeiros. Que minhas amigas não são princesas, mas são tão reais e leais quanto. Que meus pais não são invencíveis, mas fazem de tudo para ser.


E que bem, a vida pode até perder um pouco da diversão quando você cresce, mas que ainda existem muitas coisas que eu posso descobrir ao longo do meu caminho. E que não é porque eu não tenho mais quatro anos, que não posso criar tudo o que eu bem entender.


Foi só quando percebi que abri os olhos e acenei para o guerreiro de armadura prateada, me arrumei e fui viver a minha vida, que eu notei que crescer é saber deixar a criança viva dentro de você.

Acho que cresci.

Escrito por Deborah Sequeira

19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males.
Quer conversar comigo pelas redes sociais? Fácil, só me chamar em @duzentaslinhas 
Ou quer desabafar secretamente? Me chama no snap duzentaslinhas ou pode me mandar sua história pelo e-mail duzentaslinhas@gmail.com (juro que sou boa em conselhos)
 

PARABÉNS PARA VOCÊ, AMOR

Eu queria ter te desejado parabéns antes, mas não deu. Não foi falta do que falar, porque você sabe bem que eu sempre tenho uma pilha de coisas prontinhas para serem ditas à você. Também não foi falta do que desejar, porque eu desejo que tudo que há de mais lindo no mundo venha a florescer dentro de você. Que você desabroche aos poucos e tenha coragem de mostrar à todos os detalhes da sua personalidade que um dia, me encantaram tanto.

Não foi falta de tempo também. Bateu meia noite e eu fiquei estática com o coração acelerado e o celular na mão parado bem nas suas mensagens. Digitei mil coisas, apaguei. Digitei mais mil outras coisas, apaguei. Nada saía bem. O sentimento de estar falando um monte de baboseiras era o que me consumia. Bateu 3hs da manhã e não havia mais sentido.

Você sabe que eu sempre fui daquelas que ou faz perfeito ou nem chega à terminar. Sou chata mesmo. Bato o pé, faço birra. Teimo que só. Mas com você, logo com você, nunca me preocupei muito com essas manias. Ia atrás quando sentia falta, corria atrás ao ponto dos meus pés nem aguentarem mais.

Até que parei.

Decidi que eu e você não era suficiente para caber numa mensagem de texto e nem para me fazer correr uma maratona. Fechei os olhos e dormi. Foi difícil, sonhei com você até. Mas você sabe, é assim quando arrancam o curativo de uma vez só.

Mas ainda sim, percebi que apesar de todos os planos terem ido por água abaixo e agora estarem tão borrados ao ponto de nem conseguirmos ler, você foi o melhor conto de fadas e falhas que me apareceu. Mesmo tendo me causado um monte de dores de cabeça e no coração, também já me fez ficar acordada uma noite inteira pensando nos seus tipos diferentes de sorrir e me causou palpitações gostosas.

Parabéns para você, que conseguiu ir embora e deixar rastros lindos pelo caminho. Claro que no início, quando EU resolvi jogar todas as coisas para fora do carro enquanto percorria a MINHA estrada, eu não notei. Mas você deixou um amontoado de palavras, gestos e sentimentos bonitos plantados no fundo do meu eu. Parabéns para você, que me ensinou que às vezes, relacionamentos acabam sim, mas o amor não.

E nem precisa acabar.

O amor pode perpetuar por todo o sempre, assim como a gente, em um universo paralelo, em uma outra vida mais divertida e menos complicada. Todas as nossas juras podem continuar congeladas e serem lembradas com o carinho de quem me tirou da minha zona de conforto e me fez encarar o mundo.

Parabéns para você, que não é mais o meu amor, mas é. Que mesmo que não esteja perto e nem vá viver comigo tudo o que queria viver, se lembre de mim como a mulher que acreditava que você podia ser tudo o que queria ser e que sempre vai acreditar. Parabéns para nós, que podemos seguir nossas vidas sabendo que fomos o quebra-cabeça mais bem encaixado que já existiu, mesmo que tenhamos perdido as peças pelo caminho.

Escrito por Deborah Sequeira

19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males.
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AQUELE DIA DOS NAMORADOS

Eu entrei com você pela porta principal daquela casa amarela, tremendo de frio e morrendo de medo. O vento gelado levantava meus cabelos e eu puxava o cachecol verde (que combinava com a cor da sua camisa) com força. Eu me lembro de respirar fundo e dar o primeiro passo com o pé direito para dentro da casa. Você segurando minha mão, me olhou de relance e abriu um sorriso de lado que me transmitiu toda a segurança que eu precisava.

Você pode até achar que eu não lembro, só pela sua mania de querer me contrariar. Mas eu lembro de tudo muito, muito bem mesmo. Era dia dos namorados, sua família estava reunida em casais ao redor da mesa e eu me esforçava para cortar a lagosta do jeito mais desengonçado possível. Você dava leves risadas, vez ou outra. Eu tinha vontade de pular no seu pescoço e te matar.

Ou te encher de beijos.

Eu lembro que sentamos no sofá e vimos suas fotos da época do colégio. Aquele menino de quinze anos tinha mesmo cara de quem ia alcançar mais do que o sucesso. Você me contava todas as suas histórias engraçadas (porque por incrível que pareça, você não era tão bonito ou popular assim na época da escola) e eu fingia que prestava atenção enquanto me mergulhava nos seus olhos azuis infinitos. Eu me lembro muito, muito bem.

Teve aquele dia também, segunda comemoração de namorados que passamos juntos, na cama, enroladinhos numa conchinha que não parecia se desfazer jamais. Você me prometia todos os planos que eu sabia que jamais faria sozinha. Brincava com os meus dedos e depois entrelaçava-os nos seus. Me beijava a testa, a bochecha, o nariz, os lábios...

Eu me lembro muito bem.

Também teve aquele dia na beira da praia, que você me pediu em namoro pela terceira vez, no terceiro dia dos namorados juntos. E eu aceitei, pela terceira. Do mesmo jeito que aceitaria até o resto da minha vida. As ondas molhavam nossos pés e o céu colorido iluminava seu rosto do modo mais lindo que eu já vi. Eu lembro.

Mas aí chegou Aquele dia, dia dos namorados? Não. Era um dia normal. Mas era nosso dia, namorados apaixonados prontos para viver a vida juntos. Era a minha festa de família, eu estava de batom vermelho do jeito que você gostava, rindo com todas as piadas sem graça dos meus tios e esperando você chegar. Bateu 22hs e nada. 23hs e nada.

De repente, todos foram embora. Só eu sobrei, sentada no chão do banheiro tentando secar as lágrimas enquanto lia a sua mensagem que dizia que tinha esquecido e que era melhor parar por aí. Mas eu não, eu me lembro muito bem.

Me lembro das danças, das músicas, dos beijos, do dia em que tiramos todos os móveis da sala apenas para termos espaço de nos amarmos. Porque ô, nosso amor era enorme e eu não me esqueci.

Eu me lembro muito bem.

Escrito por Deborah Sequeira

19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males.
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A SAUDADE APERTA E EU (QUASE) LIGO PARA VOCÊ

Tem horas que a saudade aperta e eu quase ligo para você. Eu sinto meu corpo inteiro se encolher na ponta da cama e abraço as minhas pernas com tanta força que minha testa apoia nos joelhos. Eu fecho meus olhos e tento desesperadamente contar até dez. Mas me perco no meio e percebo que preciso soltar o ar que prendi em meus pulmões.

O ar vai embora exatamente como você, depois de eu tentar impedir que fosse. Mas é nessa hora que eu tento puxá-lo de volta e junto vem a saudade que sufoca tudo o que eu tenho por dentro. Me preenche o peito mas mesmo assim, me deixa sem ar, tonta e completamente embriagada com o cheiro do seu perfume.

E eu te juro, eu quase pego o telefone.

Mas abro os olhos e tento refazer mil vezes as minhas notas mentais, reescrever os porquês e embaralhar os números do seu celular lá no fundo do meu eu. Mas ainda sinto essa falta que deixa meus pés gelados com saudade dos seus, que me esquentavam nas noites frias.


E é nessas horas que imploro para não tirarem os olhos de mim, imploro para me fazerem rir e me obrigo a rir de qualquer coisa. Mesmo que nada tenha tanta graça quanto as suas rimas. Tento me focar em algo que não seja relacionado a falta que você faz do outro lado da cama. Vejo filmes, leio livros, tomo aquele chocolate quente que eu sempre deixava queimar e me distraio.

Mas dura pouco e novamente só penso em largar a porta de casa aberta mesmo, esquecer as chaves pelo meio do caminho, sair de camisola, despenteada e descalça, só para ir atrás do meu coração, que você levou junto contigo quando partiu. Nessas horas que eu preciso inventar desculpas que não me deixem atender, para caso você ligue. Dizer que eu saí, que eu dormi, que eu estou em um banho demorado enquanto me apronto para superar você.

Mas o telefone não toca, e é quando eu tenho uma folga no meio daquela saudade toda, e quase agradeço você. É quando eu me lembro de que eu não devo ligar, não devo correr, não devo chorar ou sequer me lembrar de você. É a hora que eu listo novamente todos os momentos estragados, os erros idiotas, e coloco meu amor dentro do potinho no canto do meu quarto. É a folga que eu tenho, quando eu desligo o celular e não procuro mais pensar no que você está fazendo, ou no motivo de você não ter vindo ainda.

São os momentos que eu percebo que consigo me amar mais do que você já me amou, tentando te esquecer, te deixar para lá, te mandar para bem longe. São nesses momentos em que eu solto as pernas, me estico inteira, aceito a dor que você um dia me trouxe, mas não choro e nem esperneio. Me sinto sortuda por poder me deitar no meio da cama cheia de travesseiros somente meus. Finalmente consigo respirar fundo e noto que não quero mais perder meu tempo quase ligando para você. Nem com você de qualquer jeito que for.

Escrito por Deborah Sequeira

19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males.
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PARA TODOS QUE JÁ PERDERAM ALGUÉM

Eu ainda vejo seu rosto na multidão. Mas nunca é você. A moto vermelha cisma em aparecer na minha frente toda vez que atravesso a rua, me deixando com o coração na mão. Assim, despedaçado. Minha visão brinca comigo e quando acaba a brincadeira, sinto que não há mais nada.

Eu ainda escuto a sua voz como se você estivesse do meu lado, discursando com palavras bonitas. Consigo me lembrar os detalhes da sua gargalhada e do modo como você conseguia deixar todo o ambiente iluminado com a sua presença.

Você era meu presente e em um piscar de olhos, virou passado.

Eu ainda lembro do seu abraço que me acolhia de um modo único, que nenhum outro abraço vai me acolher pelo resto da minha vida. Lembro do seu beijo no topo da minha testa e das suas mãos que seguravam as minhas e me protegiam do mundo inteiro.

Ainda sinto seu cheiro quando estou sozinha em casa e me pergunto de onde veio esse aroma que me traz tanta saudade. Mas dura pouco, desaparece rapidamente sem que eu me prepare.


Eu ainda acordo de madrugada confusa, sem saber bem se você está aqui ou não. Tem vezes que demoro minutos até me lembrar completamente do dia em que você fechou os olhos para sempre. Mas lembro, hora ou outra.

Ainda sinto sua falta, todos os dias. E sinto muito por você não poder presenciar algumas das minhas realizações. Por não poder mais atender o telefone e me ouvir tagarelar sobre os meus sonhos.

Meu maior medo era te perder e como sabemos, eu perdi.

Por sorte, não perdi todo o encanto que você me ensinou a ter. Ainda continuo teimosa do jeitinho que você me conheceu. Ainda percorro meus objetivos e ainda comemoro minhas vitórias. E caramba, que vazio eu sinto quando no meio de todos os olhares orgulhosos não encontro o teu.

Mas a saudade ameniza em alguns momentos. As fotos me confortam, saber que eu tive o prazer de conhecer você me conforta. A dor fica um pouquinho menos insuportável. Mesmo em dias como o seu aniversário, em que eu desejo poder te parabenizar e me enrolar nos seus braços. Ou no meu, que eu espero a sua mensagem e ela nunca chega.

O vento que levanta meus cabelos e o sol que aquece minha pele. A chuva que cai em gotinhas prateadas na minha janela. O arco-íris que parece mágico no horizonte. Tudo torna a perda um pouco menos cruel. Porque ainda sinto que você está aqui, em algum lugar, me observando com cautela, vendo se não estou em apuros, se não precisa do seu carinho no meu cabelo.


E se vocês, leitores, já perderam alguém, vão saber do que eu estou falando. Sabem como funciona aqueles segundos em que você tem certeza de que a separação de vocês não é eterna, quando a luz entra pela frestinha da cortina e você vê os pontinhos coloridos no ar.

Eu ainda sorrio, porque não era você. É você. Toda vez que algo me arranca um sorriso do nada eu sei que eu não tinha você. Eu tenho você.

Escrito por Deborah Sequeira

19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males.
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